Publicado por: ipanemaemcena | Setembro 25, 2008

Quem flana seus males espanta

“Flanar é ser vagabundo e refletir, é ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem; é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da população, admirar o menino da gaitinha ali da esquina.”

João do Rio, em seu livro “A Alma encantadora das Ruas” (1907), foi pioneiro nos âmbitos da sociologia e literatura urbana, pois criou uma forma inusitada de encarar a cidade do Rio de Janeiro. Ao “perambular com inteligência”, o “flâneur” (uma expressão originada do francês) era capaz de registrar não só o cotidiano da sociedade, mas, principalmente, sua efemeridade – assim como a crônica. Tudo indica que tenha se inspirado em Charles Baudelaire (1821-1867), filósofo e poeta que falecera 14 anos antes de João nascer. Segundo Baudelaire, o dever do flâneur era extrair algo de eterno do transitório. A multidão e as ruas eram sua casa. E ele observava seu habitat atentamente, o analisava em seus mínimos detalhes. Ou melhor, o apreciava. Encontrava beleza até mesmo no vulgar.

A figura do “flâneur”, porém, no passado se perdeu. O aumento da violência complicou sua missão, o gosto pela observação e pela estética das ruas. As inovações tecnológicas do Século XX, que teoricamente vieram para dar mais tempo às pessoas, aceleraram suas vidas e degradaram suas relações. A rua, antes palco da arte, virou mera passagem.

Mesmo assim, ainda é possível flanar por algumas becos e bairros do Rio. Costumo fazer isso freqüentemente, só que chamo de “rolé”. É agradável. Há tanta riqueza nas ruas! Quando você as observa atentamente, percebe que certas pessoas vivem até hoje no mundo de Baudelaire. E quantos personagens, quantas histórias para contar.

Semana passada, analisei quantas figuras “ganham” a vida nas esquinas de Ipanema, de forma ilícita ou não. A quantidade é absurda. Vendendo bala, tapioca, milho ou pipoca. Fazendo artesanato, consertando bicicleta ou guardando carro. Vendendo de celular e dvds a flanelas e panelas. É um gigantesco mercado informal a céu aberto.

João Leite, por exemplo, tem 33 anos, e há sete cata latinhas. Diz não ter do que se queixar: “É o melhor emprego que há. Não tem hora pra trabalhar, ninguém manda em você”. A tarefa é um pouco ingrata, tem que ficar procurando as “danadas” em lugares sujos, como lixos de bar e domicílio. A praia também é um bom lugar, além de ser “menos anti-higiênico”. O preço, pago pelo depósito de reciclagem, é por quilo: “Não adianta dar uma de malandro e querer encher o saco com poucas latas, pois eles pagam R$ 3,00 cada kg e ponto final. Isso dá, aproximadamente, 65 latas.” Em média, José junta 12 kg por noite, o que logo se transforma em R$ 36,00 no seu bolso. “Os fins de semana são mais lucrativos, pois as pessoas bebem mais”, complementa.

Se depender de Queiroz, músico de 62 anos, trabalho é o que não vai faltar a João. Ao me aproximar para uma conversa, senti seu bafo de cara. No mínimo 10 cervejas ele já tinha entornado. Neste dia, estávamos no Leblon, e ele não quis me conceder a entrevista. Por acaso, o reencontrei em mesmo estado, ou pior, na Rua Vinícius de Moraes, em Ipanema. Eu estava com uns trocados no bolso, e assim ele pôde me vender algumas poucas palavras: “eu gosto de tocar violão”. Pude notar que Queiroz é bem mais expressivo com as cordas do violão do que com as vocais, o que lhe rende até R$30,00 dentro de seu copinho de plástico no final das noites.

cata-latinha.jpg queiroz.jpg

Quem é aquele sujeito que quando você menos espera aparece? Ou melhor, você já o espera. Quem é aquele cara que está por todas as partes, aonde quer que você vá? O bom e velho flanelinha, com quem temos uma relação de amor e ódio. José, de 38 anos, já foi de tudo: gari, frentista, segurança, vigia, etc. Há 4 anos como “guardador de carros” na Henrique Drumont, está sorrindo à toa: “Nós somos os desempregados de luxo. Tiro 700 conto por mês. Tá bom, ou quer mais (rs)?” Segundo José, quanto mais tempo você se instala em um local, maior é a confiança de quem deixa o carro na tua mão e, conseqüentemente, maior é a gorjeta. Para ele, passa fome quem quer: “Emprego a gente sabe que tá difícil, mas trabalho é o que não falta!”.

O outro lado da rua já tem dono. Nesse trabalho, os espaços de cada um devem ser bem delimitados e respeitados, se não gera briga das feias. Seu Valter, um moço muito simpático, de 60 anos, trabalha guardando carros há 41 (!). “Trabalho com isso desde os anos 60. Naquela época a gente era preso direto. Botavam a gente dentro de um ônibus ou no Estádio do Maracanã. Mas em menos de um dia a gente tava solto. Era engraçado, mas penoso. Isso tinha que acabar. Nós batalhamos, fizemos uma Associação de Guardadores de Carro, criamos um Sindicato e, finalmente, em 1977, essa prática virou profissão” – ele afirma com orgulho, mostrando sua carteira assinada.

Depois de toda essa luta, Seu Valter ganha, em média R$ 500,00 por mês. “Não trabalho todo dia, né, se não dava pra tirar mil pratas”. Tudo bem Seu Valter, mas cada carro que o senhor toma conta te pagam R$2,00, sendo que só R$1,20 vai pra você, o resto é pra comprar o talão. Enquanto isso, o José ali da esquina tira, no mínimo dois reais por carro. Qual é a vantagem de ter uma carteira assinada nesse país? “Nenhuma”, responde José. “Se liga no papo reto: meu amigo tá todo correto com a Prefeitura. Outro dia a filhinha dele tava doente, ele não tinha dinheiro pra comprar remédio, veio pedir pra mim. Me diz pra quê que eu vou assinar um compromisso com o governo? Eu tô tranqüilo assim”.

A questão da carteira assinada versus informalidade é um grande problema no Brasil. Difícil de resolver. O trabalho informal abrange 58,1% dos ocupados no país, ou 38,1 milhões de pessoas, segundo estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em Ipanema, há uma série de camelôs ilegais, principalmente na Rua Visconde de Pirajá. Para garantir uma licença, é preciso ir à Coordenadoria de Licenciamento e Fiscalização, da Guarda Municipal. Se você já tiver alguma experiência com o comércio local e puder comprová-la, ou for deficiente físico, o ritual fica mais fácil. No pagamento de uma taxa que não ultrapassa os cem reais, você estará autorizado a comercializar no lugar que lhe for determinado – normalmente camelódromos, como a Uruguaiana, no Centro da Cidade.

Assim funciona na teoria. Mas, na prática… é uma bagunça. Que o diga Ana Santana, de 56 anos. Ela lembra que, em 1996 foi à Prefeitura e pegou uma licença, só que sem validade. “Com esse comprovante, o ‘rapa’ – guarda municipal – não pode apreender minhas coisas, só manda eu retirar. Eu não entendo mais nada.” Ela trabalhava aonde está sendo construído o Metrô da Praça General Osório. Por causa das obras, se mudou para a Rua Alberto de Campos, onde passa muito menos gente: “Hoje eu vendi só uma camiseta, por R$5,00. Em média tiro um salário mínimo por mês.”

camelo.jpg cangas.jpg

O “camelô” ao lado, que não quis ser identificado, afirma ter pago uma licença há dez anos, e aponta como seu “único” erro os produtos que vende: “Essa bateria de câmera aqui eu não poderia estar vendendo, porque é de fora. É considerado pirataria. Esses relógios também não, porque são falsi (ficados)”.

Ao longo da praia também podemos encontrar comércio ilegal. Os vendedores de óculos e camisas de time, por exemplo, normalmente estão fora-da-lei, pois trabalham com produtos pirateados. Os “hippies”, vendedores de canga e de pinturas estão na ilegalidade por outra razão. Seus produtos são legais, mas os R$45,00 que pagam por mês à prefeitura só lhes dão o direito de serem ambulantes. Não tem o direito de ficar parados.

O vendedor de cangas, Robson, só segue essa lei quando a polícia chega. “A gente sai correndo o mais rápido que pode e leva junto o máximo de coisas que consegue. O que ficar é apreendido. Você pode pedir uma guia para retirar o que foi apreendido, mas só vale a pena se forem embora mais do que 10 cangas. É muita burocracia.” O morador de São João de Meriti, de 48 anos, que compra cangas na Santa Clara ou no Centro por R$6,00 e as revende por R$15,00 na praia, lucra até R$1.500,00 por mês.

E você, o que faz aí parado?

Por Pedro Farina


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: