Publicado por: ipanemaemcena | Setembro 25, 2008

Quem flana seus males espanta

“Flanar é ser vagabundo e refletir, é ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem; é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da população, admirar o menino da gaitinha ali da esquina.”

João do Rio, em seu livro “A Alma encantadora das Ruas” (1907), foi pioneiro nos âmbitos da sociologia e literatura urbana, pois criou uma forma inusitada de encarar a cidade do Rio de Janeiro. Ao “perambular com inteligência”, o “flâneur” (uma expressão originada do francês) era capaz de registrar não só o cotidiano da sociedade, mas, principalmente, sua efemeridade – assim como a crônica. Tudo indica que tenha se inspirado em Charles Baudelaire (1821-1867), filósofo e poeta que falecera 14 anos antes de João nascer. Segundo Baudelaire, o dever do flâneur era extrair algo de eterno do transitório. A multidão e as ruas eram sua casa. E ele observava seu habitat atentamente, o analisava em seus mínimos detalhes. Ou melhor, o apreciava. Encontrava beleza até mesmo no vulgar.

A figura do “flâneur”, porém, no passado se perdeu. O aumento da violência complicou sua missão, o gosto pela observação e pela estética das ruas. As inovações tecnológicas do Século XX, que teoricamente vieram para dar mais tempo às pessoas, aceleraram suas vidas e degradaram suas relações. A rua, antes palco da arte, virou mera passagem.

Mesmo assim, ainda é possível flanar por algumas becos e bairros do Rio. Costumo fazer isso freqüentemente, só que chamo de “rolé”. É agradável. Há tanta riqueza nas ruas! Quando você as observa atentamente, percebe que certas pessoas vivem até hoje no mundo de Baudelaire. E quantos personagens, quantas histórias para contar.

Semana passada, analisei quantas figuras “ganham” a vida nas esquinas de Ipanema, de forma ilícita ou não. A quantidade é absurda. Vendendo bala, tapioca, milho ou pipoca. Fazendo artesanato, consertando bicicleta ou guardando carro. Vendendo de celular e dvds a flanelas e panelas. É um gigantesco mercado informal a céu aberto.

João Leite, por exemplo, tem 33 anos, e há sete cata latinhas. Diz não ter do que se queixar: “É o melhor emprego que há. Não tem hora pra trabalhar, ninguém manda em você”. A tarefa é um pouco ingrata, tem que ficar procurando as “danadas” em lugares sujos, como lixos de bar e domicílio. A praia também é um bom lugar, além de ser “menos anti-higiênico”. O preço, pago pelo depósito de reciclagem, é por quilo: “Não adianta dar uma de malandro e querer encher o saco com poucas latas, pois eles pagam R$ 3,00 cada kg e ponto final. Isso dá, aproximadamente, 65 latas.” Em média, José junta 12 kg por noite, o que logo se transforma em R$ 36,00 no seu bolso. “Os fins de semana são mais lucrativos, pois as pessoas bebem mais”, complementa.

Se depender de Queiroz, músico de 62 anos, trabalho é o que não vai faltar a João. Ao me aproximar para uma conversa, senti seu bafo de cara. No mínimo 10 cervejas ele já tinha entornado. Neste dia, estávamos no Leblon, e ele não quis me conceder a entrevista. Por acaso, o reencontrei em mesmo estado, ou pior, na Rua Vinícius de Moraes, em Ipanema. Eu estava com uns trocados no bolso, e assim ele pôde me vender algumas poucas palavras: “eu gosto de tocar violão”. Pude notar que Queiroz é bem mais expressivo com as cordas do violão do que com as vocais, o que lhe rende até R$30,00 dentro de seu copinho de plástico no final das noites.

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Quem é aquele sujeito que quando você menos espera aparece? Ou melhor, você já o espera. Quem é aquele cara que está por todas as partes, aonde quer que você vá? O bom e velho flanelinha, com quem temos uma relação de amor e ódio. José, de 38 anos, já foi de tudo: gari, frentista, segurança, vigia, etc. Há 4 anos como “guardador de carros” na Henrique Drumont, está sorrindo à toa: “Nós somos os desempregados de luxo. Tiro 700 conto por mês. Tá bom, ou quer mais (rs)?” Segundo José, quanto mais tempo você se instala em um local, maior é a confiança de quem deixa o carro na tua mão e, conseqüentemente, maior é a gorjeta. Para ele, passa fome quem quer: “Emprego a gente sabe que tá difícil, mas trabalho é o que não falta!”.

O outro lado da rua já tem dono. Nesse trabalho, os espaços de cada um devem ser bem delimitados e respeitados, se não gera briga das feias. Seu Valter, um moço muito simpático, de 60 anos, trabalha guardando carros há 41 (!). “Trabalho com isso desde os anos 60. Naquela época a gente era preso direto. Botavam a gente dentro de um ônibus ou no Estádio do Maracanã. Mas em menos de um dia a gente tava solto. Era engraçado, mas penoso. Isso tinha que acabar. Nós batalhamos, fizemos uma Associação de Guardadores de Carro, criamos um Sindicato e, finalmente, em 1977, essa prática virou profissão” – ele afirma com orgulho, mostrando sua carteira assinada.

Depois de toda essa luta, Seu Valter ganha, em média R$ 500,00 por mês. “Não trabalho todo dia, né, se não dava pra tirar mil pratas”. Tudo bem Seu Valter, mas cada carro que o senhor toma conta te pagam R$2,00, sendo que só R$1,20 vai pra você, o resto é pra comprar o talão. Enquanto isso, o José ali da esquina tira, no mínimo dois reais por carro. Qual é a vantagem de ter uma carteira assinada nesse país? “Nenhuma”, responde José. “Se liga no papo reto: meu amigo tá todo correto com a Prefeitura. Outro dia a filhinha dele tava doente, ele não tinha dinheiro pra comprar remédio, veio pedir pra mim. Me diz pra quê que eu vou assinar um compromisso com o governo? Eu tô tranqüilo assim”.

A questão da carteira assinada versus informalidade é um grande problema no Brasil. Difícil de resolver. O trabalho informal abrange 58,1% dos ocupados no país, ou 38,1 milhões de pessoas, segundo estudo realizado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em Ipanema, há uma série de camelôs ilegais, principalmente na Rua Visconde de Pirajá. Para garantir uma licença, é preciso ir à Coordenadoria de Licenciamento e Fiscalização, da Guarda Municipal. Se você já tiver alguma experiência com o comércio local e puder comprová-la, ou for deficiente físico, o ritual fica mais fácil. No pagamento de uma taxa que não ultrapassa os cem reais, você estará autorizado a comercializar no lugar que lhe for determinado – normalmente camelódromos, como a Uruguaiana, no Centro da Cidade.

Assim funciona na teoria. Mas, na prática… é uma bagunça. Que o diga Ana Santana, de 56 anos. Ela lembra que, em 1996 foi à Prefeitura e pegou uma licença, só que sem validade. “Com esse comprovante, o ‘rapa’ – guarda municipal – não pode apreender minhas coisas, só manda eu retirar. Eu não entendo mais nada.” Ela trabalhava aonde está sendo construído o Metrô da Praça General Osório. Por causa das obras, se mudou para a Rua Alberto de Campos, onde passa muito menos gente: “Hoje eu vendi só uma camiseta, por R$5,00. Em média tiro um salário mínimo por mês.”

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O “camelô” ao lado, que não quis ser identificado, afirma ter pago uma licença há dez anos, e aponta como seu “único” erro os produtos que vende: “Essa bateria de câmera aqui eu não poderia estar vendendo, porque é de fora. É considerado pirataria. Esses relógios também não, porque são falsi (ficados)”.

Ao longo da praia também podemos encontrar comércio ilegal. Os vendedores de óculos e camisas de time, por exemplo, normalmente estão fora-da-lei, pois trabalham com produtos pirateados. Os “hippies”, vendedores de canga e de pinturas estão na ilegalidade por outra razão. Seus produtos são legais, mas os R$45,00 que pagam por mês à prefeitura só lhes dão o direito de serem ambulantes. Não tem o direito de ficar parados.

O vendedor de cangas, Robson, só segue essa lei quando a polícia chega. “A gente sai correndo o mais rápido que pode e leva junto o máximo de coisas que consegue. O que ficar é apreendido. Você pode pedir uma guia para retirar o que foi apreendido, mas só vale a pena se forem embora mais do que 10 cangas. É muita burocracia.” O morador de São João de Meriti, de 48 anos, que compra cangas na Santa Clara ou no Centro por R$6,00 e as revende por R$15,00 na praia, lucra até R$1.500,00 por mês.

E você, o que faz aí parado?

Por Pedro Farina

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Publicado por: ipanemaemcena | Setembro 25, 2008

Cantagalo

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Comprei uma bike essa semana. Caloi, guidon alto, 21 marchas. A vendedora quase me convenceu a levar uma mais cara, com amortecedor e aro de alumínio. Mas sabe com é, no Rio de Janeiro, nunca se sabe. Segundo a 14a DP do Leblon, em apenas um dia na Zona Sul, ocorrem 12 assaltos e até 3 bicicletas são roubadas – o número deve ser bem maior porque isso é apenas o que se registra. Em vez de investir mais na bicicleta, comprei a melhor tranca da loja. Ainda assim, resta sempre o receio de deixá-la muito longe do meu raio de visão. Quando vou à praia, por exemplo, deixo na barraca do Fábio. No trabalho, que fica no alto de uma ladeira, ao lado do Morro do Cantagalo, prefiro trazê-la para dentro. Até semana passada…

“Pode deixar o ‘camelo’ preso aí mermo, ‘playboy’, aqui ninguém rouba não!”, escutei do porteiro do prédio em frente. Fiquei meio sem jeito, disse que a bicicleta era novinha, a maresia me veio como desculpa. Ele deu uma risada marota e eu uma sem graça. Entendemos o que um queria dizer ao outro. Nos despedimos antes de entrar na casa onde trabalho. Esse diálogo, que durou no máximo 15 segundos, cutucou minha cabeça. E me incomodou.

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A verdade é que existe uma grande discriminação em relação ao “favelado”. Esse termo adquiriu uma conotação pejorativa, e tem embutida uma série de preconceitos. “Favelado é ladrão, é bandido, mal-educado, é o que tem de pior na sociedade”. Que ilusão. Passe um dia na favela e verás. É um dos poucos lugares onde ainda existe o respeito. Pode deixar o “barraco” aberto. Ninguém vai invadir, ninguém vai te roubar. Pergunte a algum carioca – do “asfalto”- se já foi assaltado. Se não foi é raridade. No morro, existe uma solidariedade genuína, você encontra um sorriso verdadeiro, mesmo que sem dente. Churrasquinho de gato rolando, pode colar junto, ninguém vai te cobrar entrada. A festa é pra todos.

Não quero idealizar a favela, sei que não é o paraíso. Em vários momentos, quando há brigas de gangue, pode tornar-se o inferno. As regras no morro são ditadas pelo poder “paralelo” do tráfico de drogas. As disputas pelos pontos da droga são um dos grandes responsáveis para que o número de mortes no Rio de Janeiro ultrapasse os da Guerra no Iraque. Alguns moradores acham mais transparente a lei do morro. “Não se pode transgredi-la. Se você ficar tranqüilo, não fizer nada de errado, nunca vão levantar a voz contigo. Agora, se tu der uma de X-9 (vacilão), aí não tem perdão. Aqui se faz, aqui se paga. Diferentemente do asfalto, onde os políticos corruptos metem a mão em milhões de dólares e no dia seguinte viajam de jato à sua ilha particular”, exclama Carlinhos, ex-traficante e atualmente vendedor de barraca no Arpoador.

No decorrer desse século, a explosão demográfica, o declínio da economia e o avanço da tecnologia fizeram da favela a principal vítima de exclusão social, incluída apenas nas invasões do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e do CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais). Junto a isso, a classe média, medrosa – não sem motivo – se enclausurou em grades, muros e egos, tornando a Cidade Maravilhosa cada vez mais partida. Segundo dados do IBGE, existem quase 600 favelas no Rio de Janeiro (só perde para São Paulo, que ultrapassa esse número), e, atualmente, fica difícil não encontrar pelo menos uma em cada bairro da cidade. Principalmente nos nobres, onde a necessidade de mão de obra barata fez com que empregados se aglomerassem por perto.

É nesse contexto que a Favela do Cantagalo se forma, ao lado de um dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro. Enquanto no alto da ladeira o m2 não chega a R$1.000,00, em Ipanema ele gira em torno de R$6.000,00. Os apartamentos mais caros do Rio se encontram a poucos metros do Morro, de frente para a praia – no edifício Cap-Ferrat, por exemplo, não se encontra um por menos de 7 milhões de reais. A diferença não está só no preço, mas na quantidade de pessoas por moradia. No asfalto, 3 pessoas, em média, dividem o mesmo espaço, enquanto no Cantagalo esse número chega a 5.

No morro, não se paga impostos nem condomínio. O “menguéle”, como chamam o salgado com refresco, sai por apenas R$1,00. Parece barato, mas não se compararmos com a renda média do asfalto. Enquanto na Favela não ultrapassa o salário mínimo, em Ipanema chega à faixa de R$2.500,00 mensais. “Sem contar que aqui em cima falta luz e água, enquanto sobram baratas e esgoto”, acrescenta Bezerra, presidente da Associação de Moradores do Cantagalo.

Carlinhos, nascido e criado na Favela do Cantagalo, considera injusta essa situação, e critica os ricos pela hipocrisia. “Essa burguesia ganha milhões e, mesmo vendo a gente cada vez pior, só sabe reclamar. Ajudar que é bom, nada”. Mesmo assim, ele garante que nunca trocaria de vida. “Já vivi até fora do Brasil, em lugares como Argentina e Itália. Mas isso só serviu pra me mostrar que eu gosto mesmo é daqui, do morro, da minha terra. Aqui eu tenho liberdade”, ele declara. Já Bezerra afirma que, se tivesse condições financeiras, trocaria o morro pelo asfalto: “Não seria nada mal”.

Desconfortos à parte, há quem se aproveite da localização da favela. Jonathan Rodrigues, de 21 anos, por exemplo, já catou muito papelão e latinha no asfalto. O jovem desmistifica essa história de que favelado só teria uma opção na vida: entrar para o tráfico. “Morar aqui é maravilhoso, pois estou em plena Zona Sul do Rio. Além da praia, do shoping, há várias opções de trabalho. Já catei muita lata durante o carnaval, 3, 4 sacos de lixo davam uns R$30,00 no total. Nunca precisei das drogas pra sobreviver”. Atualmente, é agente de projetos do AfroCirco – um projeto atuante no Morro Cantagalo pertencente ao Grupo Cultural AfroReggae, destinado à inclusão social através da arte. “É muito bom fazer parte de um grupo como esse. A gente aprende a ser uma pessoa melhor, a dar a mão ao outro, a ser mais solidário. Fora o fato de viajar para vários lugares do mundo!”. Mas ele garante: “Não troco o morro por nada. Quero ser enterrado aqui.”

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Mano Brow, pintor desde moleque, é outro personagem do morro que sabe tirar proveito do asfalto. “ A minha galeria é pro público, a céu aberto, pra ricos, milionários, pobres e mendigos. Fico ali na praia de ipanema, Posto 9.” Para os gringos, um quadro chega a sair por R$ 500,00, mas, na favela, ele garante: “não vendo nada, só dou”. O tema de suas telas é bem carioca. Seja o carnaval, a favela, o samba, o mar de Ipanema ou de Copacabana. “Eu pinto o que é belo, gosto das cores. Retrato o que vivo e, ao mesmo tempo, o que não vivo. Porque, irmão, sem demagogia, nossa vida aqui no morro é cruel. Às vezes falta um pão, uma água, uma roupa. Tu pode ver o estado do meu barraco, tá quase caindo.”

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Mesmo com todas as dificuldades, ele não desiste de (sobre) viver da arte, e apenas dela. “Graças a Deus, quando tô quase no fundo do poço, vem uma ajudinha lá de cima e alguém compra uma tela.” Ele critica a falta de suporte do governo, que, até agora, só favoreceu os grandes empresários. “Tu acha que a gente pinta de graça? Tem que comprar tinta, tela, gasto mais de cem reais pra fazer um quadro. Essa Lei Rouanet (lei que incentiva a cultura), pra mim, ainda não existe. Só quem já tem grana consegue algum retorno.” O artista comenta que o Morro onde vive é um ótimo pólo de investimento: “Meu broder, posso te garantir que nenhuma favela tem tantos pintores com talento, que vivem da arte, como aqui. Imagina com um incentivo? Ia ser o maior barato.”

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“A arte é o único meio do jovem da favela se desvirtuar do caminho das drogas, do dinheiro fácil. Se o moleque tá no perrengue, a família sem grana, tu acha que ele não vai entrar pro tráfico pra ganhar mil conto por semana?” Quando Mano Brow menciona a “arte”, ele se refere a inúmeras outras atividades, como esporte, teatro, música, etc. O problema é a falta de oportunidade: enquanto sobra para a vaga de “aviãozinho” (garoto que faz o transporte da droga, quase que um “primeiro emprego” do traficante), falta para os estudos. A favela precisa de um empurrão, da ajuda do Governo.

Como o pintor diz, “a arte salva vidas”. Ou, no sentido mais amplo, só a educação nos torna cidadãos.

Por Pedro Farina

Publicado por: ipanemaemcena | Setembro 25, 2008

Aonde reina o sol

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Vista de cima, a orla que vai do Leblon ao Arpoador parece estar dominada por um gigante formigueiro entre o Hotel Sol-Ipanema e a Rua Vinícus de Moraes – não apenas nos fins de semana. Mas o que fazem todas essas pessoas amontoadas e espremidas, enquanto ao redor há tanta areia vazia? Primeiro lembremos que o ser humano, em especial o carioca, não vê graça nenhuma em ir à praia sozinho – ainda que anseie eternamente por uma praia deserta. Em segundo lugar, a praia, apesar de ser um espaço público, está sujeita a segregações. Há tribos específicas de acordo com a faixa de areia ocupada.

Nos anos 60, a galera do surfe se concentrava no Arpex, onde rolavam as melhores ondas da orla; já os intelectuais bebiam uma no bar Veloso – atual Garota de Ipanema – e partiam para praia na Montenegro, a partir dos anos 80 conhecida como Rua Vinícius de Moraes, em homenagem ao ilustre cantor. No início da década de 70, um novo “point” surge, graças a uma obra da prefeitura. O Píer, que fora criado por causa de um Emissário Submarino e ficava entre as Ruas Farme de Amoedo e Teixeira de Melo, virou a “sensação” do momento. Proporcionou boas ondas não só no mar, mas nas areias de Ipanema. Ali nasceram as “dunas do barato”, ou dunas da Gal”, local predileto da cantora. O ambiente descontraído reunia surfistas, artistas, hippies e intelectuais. A festa, porém, tinha tempo limitado.

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Em 1974, três verões após seu nascimento, o Píer foi destruído, deixando órfãos inquietos. Passado um ano, o Posto 9 foi inaugurado, em frente ao Hotel Sol-Ipanema, para felicidade geral da “esquerda festiva”. Era época da ditadura militar e o movimento de contracultura começava a se formar. O Sol e o Posto 9 se tornaram sinônimos e se firmavam – mesmo que “inconscientemente” – como um ponto de resistência que perdura até hoje.

– As pessoas insatisfeitas tomavam dois rumos: oposição política ou ‘desbunde’. O Posto 9 era povoado pelos desbundados, o que não quer dizer alienados. Por incrível que pareça, havia algo de político em fumar um baseado, no sentido de rejeitar o sistema. Mas não era este seu enfoque principal e talvez por isso não tenha sofrido repressão militar – comenta o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), defensor da legalização da erva e protagonista de uma das histórias que ajudaram a celebrizar o Sol, batizada de “Verão da Abertura”.

Durante seu exílio, Gabeira fizera algumas viagens à Grécia, onde calção de banho era coisa de outro mundo. De volta ao Brasil e à Ipanema, sem roupa de praia, foi ao Posto 9 com uma calcinha de biquíni – presente de sua prima. Quando toquei no assunto, desconversou : “Isso não foi nada.” Bem, para a mídia foi tudo. O fato é que qualquer chuvisco naquela praia que reinava o Sol prenunciava tempestade. E assim foi com a tanga crochê de Gabeira, com o topless, com os gays, e tudo de novo que ali surgia – que não era pouco. A fama atraiu problemas e um penetra: a polícia.

O intruso não era bem visto, e o pior, não havia como detê-lo: a PM chegou a armar uma barraca no meio da praia. O jeito foi usar a cabeça, ou melhor, a boca: através do som de apitos, as pessoas alertavam sobre a chegada dos “vermes” (gíria atribuída aos policiais). O verão de 1996 ficou conhecido como o do “Apitaço”. “Atualmente, algumas cidades utilizam o apito como mecanismo de defesa, prova de que Ipanema é vanguarda até mesmo na maneira de fazer protesto”, ratifica Gabeira. Ainda há resquícios dessa tática no Posto 9, na forma de assobios.

Mas não é só de ervas, peitos, cangas e apitos que vive esse pequeno trecho de praia. Grande parte da cultura brasileira foi formada em suas areias. O cinema, a psicanálise, a poesia, o teatro, a música e a poesia borbulhavam e se criavam nesse meio, freqüentado por Caetano Veloso, Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Cazuza, Leila Diniz e outros inúmeros nomes significativos na criação da nossa identidade. A canção “Garota de Ipanema” – um dos maiores sucessos da música mundial – foi inspirada no doce balanço de uma moça que caminhava em direção aquele mar, sob olhares atentos de Vinícius e Tom Jobim. Os primeiros passos do próprio Gabeira rumo à política também aconteceram por ali, onde conheceu parceiros de trabalho, como Carlos Mink e Alfredo Sirkis, com quem fundou o PV.

“Podemos definir o Posto 9 como um território de vanguarda, de novas experiências, e cuja convivência nem sempre foi pacífica”, esclarece Scarlet Moon, atriz, jornalista e escritora. Ex-figura carimbada do Sol durante os sete dias da semana – apesar de não esconder a preferência da praia nos dias de “trabalho” –, ela caracteriza o local como “um ponto de contato social, econômico e sexual.” Regina Casé, sua amiga íntima, conheceu o segundo marido no Sol, enquanto a própria Scarlet trocou os primeiros olhares com o cantor Lulu Santos – foram casados por mais de 20 anos – por aquelas bandas. Muitas outras histórias sobre essa praia podemos encontrar em seu livro “Areias Escaldantes, Inventário de uma Praia”, escrito em 1999.

Memórias que ficarão guardadas “com muito orgulho e carinho”, como ela mesmo admite. Scarlet Moon não freqüenta mais o Posto 9. Gabeira também não. Mas ambos garantem que ele continua o mesmo, igualzinho. A atriz polivalente afirma que a “longevidade” de suas areias escaldantes é o que mais lhe impressiona. O “ipanemense jurássico” – como define a escritora em seu livro – declara, com veêmecia: “A única coisa que mudou nesse lugar foi a qualidade da água e da areia!”. Disto não há de se negar.

O comércio local também tem suas particularidades e é intenso. Um vendedor ambulante ou de barraca que seja esperto não tem dúvida de que ali é um dos melhores lugares para fincar seu negócio. O consumidor é formado majoritariamente pela classe média, praticante de esportes variados – como “ “fut-vôlei”, frescobol, surfe, etc – e movido pela larica, apetite despertado pela cannabis A própria relação dos comerciantes com os freqüentadores é diferente, mais íntima. Todos são amigos. É possível deixar seus pertences nas barracas sem desconfiança, até mesmo abrir uma conta. Caetano Veloso, segundo Scarlet, dizia que só faltava cinzeiro para fumantes jogarem cinzas e guimbas de cigarro. Hoje não é diferente.

Não se assuste se alguém berrar no seu ouvido, não é arrastão. É o vendedor de abacaxis, que, ao invés de anunciar seu produto normalmente, inventou uma nova forma de chamar a atenção das pessoas. Ele chega de fininho e “AH… bacaxi!”. Júlio comenta: “Aqui a galera é mais tranqüila, não esquenta muito com essas coisas. Imagina se eu fizesse isso em Copacabana, numa roda de velhinhos!? Tava frito.” Mas ele admite já ter entrado em algumas frias. “Sempre tem alguém um pouco mais mal-humorado, que acaba se irritando. Eu me pergunto por quê. Com sol, água e abacaxi, não falta mais nada.” Ele garante manter o seu estilo, pois, no final das contas, o saldo é positivo. Só não vale causar infarto.

Ele não é o único a lutar com originalidade pela atenção dos praieiros, distraídos pelos corpos sarados, “altinhas” – espécie de “fut-volei”, mas sem rede e na beira d´água – e tantas outras atrações do Posto 9. Há um moreno de cabelo enroladinho que vende “brownie” sem parar, por R$3,00. Sua “logo” é: “Olha a larica aí, gente!”. Já o moço do açaí – R$4,00 -, não se desgruda de seu auto-falante e, fazendo uma voz bizarra, arranca risadas e trocados da galera. Há também o Mate com limão, cada um em um galão, que veio a substituir o antigo “limãozinho”. Você é quem regula a quantidade desejada; sai por R$2,00 o copo de 300ml, com direito a “chorinho”. O mais famoso é o Marcelo. Invariavelmente com chapéu de palha, ele é inconfundível, assim como a qualidade do seu Mate. Conhecido pelo nome no Posto 9, ele só vende por ali: “Cara, eu chego a fazer 400 contos num domingo. Vou do Posto Nove até no máximo a Garcia. Aqui tem muito mais gente, e a galera tem mais sede, né (rs) !?”. Ah, e na compra de um mate leva-se um brinde: seda – e nao é “colomy”.

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Como vocês podem ver, esse pequeno grande trecho de praia é realmente um mundo à parte, um lugar especial. No verão, o sol se põe no horizonte, e é reverenciado por seu público de pé, com palmas, assobios e sorrisos. Atualmente, com o aumento do número de pessoas, o Posto 9 está crescendo, havendo um deslocamento para o chamado “Coqueirão”, entre as ruas Maria Quitéria e Joana Angélica. Quem pretende chegar lá, vá em frente, mas não se incomode com o cheiro da “marola” ou com a areia no olho por causa da “altinha”. Terá de se adequar a suas regras, que, na verdade, se resumem a uma só: é proibido proibir.

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Por Pedro Farina

Publicado por: ipanemaemcena | Novembro 29, 2007

Mãe só tem uma?

Quem mora na Zona Sul certamente já ouviu falar em Mãe Valeria de Oxóssi, ou pelo menos se deparou com algum de seus cartazes, espalhados por quase todos os postes de Leblon e Ipanema. Motivo de reclamação para uns, para outros expressa agradecimento. “Eles se vêem atendidos e querem me presentear. Agradeço muito, mas já pedi que não façam isso, pois concordo que suja a cidade”, comenta Mãe Valéria.

O “slogan” – Traz a pessoa amada em três dias – deve despertar a curiosidade de muita gente. Afinal, quem nunca teve um amor perdido? Por outro lado, há também o receio de se expor a um estranho. Principalmente em nossa sociedade, extremamente católica, onde religiões como o Judaísmo, Daime, Espiritismo, entre outras, sofrem preconceito e estranhamento da população.

No meu caso, fui sem hesitar. Peguei seu contato em um dos cartazes e liguei para a famosa Mãe Valéria de Oxossi. Não era essa, porém, com a qual iria me consultar dali a algumas horas. Esta morava na Avenida Lúcio Costa, na Barra. Fiquei um pouco confuso, confesso, pois estava certo de que vira algum cartaz indicando Ipanema. Desci a ladeira de casa e verifiquei em outros postes. Foi aí que percebi algo interessante : o velho ditado “mãe só tem uma” não poderia se aplicar às Valérias. Liguei para o outro número que havia encontrado e marquei consulta com uma nova Mãe, de mesmo nome, para as 17 horas. Só que dessa vez em um prédio de esquina, na Rua Maria Quitéria. Em Ipanema.

Toquei o número de seu apartamento e, curioso, olhei para cima, à sua procura. Não deu outra. Logo Valéria apareceu na janela do primeiro andar e liberou minha entrada. Misteriosa. Subi pelas escadas até seu porta, já entreaberta. Nos cumoprimentamos e, logo em seguida, fomos para seu local de trabalho. Estava quente. Velas acesas. Mesmo assim, o quarto, cheio de santos de aproximadamente um metro de altura, continuava escuro. Ao ser indagada sobre a existência de outras Valérias de Oxossi, a mãe-de-santo foi enfática: “deve haver, ué, não há outros garotos com o mesmo nome que o seu?”.

O ritual começou. A mãe de santo falou frases em idioma incompreensível, bateu com a mão na mesa algumas vezes e jogou as conchinhas que prendia à sua mão. “Tudo o que é dito na consulta é sigiloso”. Portanto, prefiro não arriscar. Depois de algumas revelações sobre minha pessoa, ela perguntou: “mais alguma pergunta?”. Eu disse: Sim, sobre você…

Esbocei pegar o gravador, mas logo fui interrompido. Não são permitidos objetos pessoais, muito menos eletrônicos, em cima de sua mesa. Recebi um papelzinho no qual pude fazer breves mas importantes anotações. Ela foi se tornando mais gentil e sorridente com o passar do tempo.

Foi por meio da dor que Mãe Valéria descobriu seu dom. Aos seis anos de idade, a menina esteve com uma grave doença, e por isso foi levada a uma mãe-de-santo vizinha à sua avó, no Bairro do Morumbi, em São Paulo. “Sou de família muito católica, minha avó era seguidora de Maria. O desespero que nos levou à busca por ajuda espiritual”, conta.

Para que fosse curada, foi necessário que raspasse santo, ou seja, raspou todos os pêlos do corpo. Desta forma, renasceu para iniciar a religião. Dentro do Candomblé, Valéria desenvolveu a espiritualidade e, há 32 anos, é mãe de santo.

Muitos de seus clientes são pessoas famosas e políticos influentes. Ao longo da vida, fez muitos amigos e já pôde ajudar em situações públicas. A procura para “amarrar” amor é grande. Sobre o prazo estipulado, Valéria explica. “Na maioria dos casos, isso chega a, no máximo, cinco dias. Se não acontecer o esperado, pode ser que haja um problema maior e kármico. Então é preciso parar e ver onde está a resposta.”

Mãe Valéria Nicolau (Oxóssi é seu santo, não seu sobrenome) tem quatro filhos, de 17, 14, 5 e 3 anos. Todos batizados no catolicismo. A filha mais velha, Catarina, é sensitiva, mas ainda não se dedicou por inteiro ao Candomblé. “Aqui em casa não imponho nada. Essa hierarquia de que avó, mãe e neta devem seguir pelo mesmo caminho não acontece. Deixo que eles resolvam por si só. É importante uma entrega total e, se não for por amor, será penoso”, ressalta.

De segunda à sábado, o dia-a-dia de Mãe Valéria segue em função das consultas e obrigações como mãe-de-santo. Aos domingos, se entrega a seu barracão, em Barra do Piraí. Com a ajuda financeira de clientes, mantém uma creche nos fundos, onde abriga 128 crianças (órfãos, em sua maioria). Elas recebem assistência escolar, orientação religiosa e kardecista. “Há pouco tempo um bebê de três anos foi adotado”, alegra-se Valéria.

A expressão “ tempo livre ” não é freqüente em seu vocabulário. A vida social se resume em casamentos e aniversários de entes queridos. Levar um filho ao colégio ou ir a um cinema é praticamente inviável. A ajudante Vanda, encarregada de organizar sua agenda lotada e cuidar das crianças, é o braço direito de Valéria. “Sei que abro mão de estar com a família, mas o meu maior prazer é servir à religião com amor”, afirma.

Em uma vida inteira lidando com problemas alheios e das mais variadas causas, Mãe Valéria relata um dos fatos mais inusitados que já vivera. Certo dia, um padre foi lhe pedir consulta. “Ele chegou e contou que queria resolver uma situação e, sem o menor problema, admitiu que era padre.”

Apaixonada e interessada por todas as religiões, Valéria tem muita fé, acredita que só o amor pode mudar o cenário da realidade mundial e afirma que todos os caminhos do bem levam a Deus. “Vivemos em um mundo onde nem cumprimentamos o nosso vizinho. A lei do retorno existe. Se plantarmos fiel, com certeza colheremos os frutos”, analisa. Voltando aos cartazes, colados em muros e postes, ela dá um palpite: “Por que não espalhar as palavras “amor” e “fé” pela cidade? Talvez assim as pessoas absorvam essa energia e passem a tratar o próximo como gostariam de ser tratadas”.

Por Pedro Farina

Publicado por: ipanemaemcena | Novembro 29, 2007

“É sempre bom curtir um pôr-do-sol em Ipanema”

Se houvesse um circuito de vôlei para avós, não teria a menor dúvida em quem apostar: Maria Isabel Barroso. Mais conhecida como “Isabel do vôlei”, ela é muito mais do que uma estrela da seleção brasileira da década de 80. Mulher de fibra, mãe de quatro filhos, e agora avó, tem muita história pra contar. “Virar vó é muito louco, mas mais incrível ainda é perceber que aquela sua filhinha virou mãe”. Caseira e casamenteira, como ela própria faz questão de afirmar, pode ser encontrada batendo uma bolinha nas areias de Ipanema, mais precisamente na Rua Garcia D’Ávila. Agora, se você é daqueles que curte uma praia cheia com o sol a pino, ah, vai ser difícil de encontrá-la…

Com quantos anos começou a jogar? Por quê?
R: Comecei a jogar com 12 anos, quando estudava no Notre Dame, em Ipanema. Eu sempre gostei muito de esportes, apesar de não vir de uma família esportista. O meu técnico, naquela época, treinava o time do Flamengo e estava começando a montar uma equipe Mirim. Ele então me chamou, já que tinha o biotipo ideal: alta, magra e longilínea. Acho que esse foi o início de tudo.

Como seus pais se comportaram? Houve algum tipo de incentivo ou foram contra?
R: Posso dizer que o maior incentivo dos meus pais foi me dar liberdade para escolher aquilo que gostava. Eles nunca me pressionaram a fazer nada. Tudo bem que não havia aquela empolgação em relação ao esporte, mas também não me impediram de seguir o meu caminho. Mesmo com o todo o preconceito que existia em relação ao esporte, ainda mais se tratando de uma menina.

Além do vôlei, que outras coisas gosta de fazer na vida?
R: Muitas outras (risos). Ir num cineminha, beber água de côco, bater papo com meus filhos e amigos, estar em volta de quem eu gosto. Não curto muito baladas, sou mais caseira. Gosto de curtir as coisas simples da vida e ficar numa boa.

Se não fosse jogadora, o que seria?
R: Ahh… Essa pergunta é muito difícil! Desde cedo eu comecei com o vôlei. Ser um esportista requer muito empenho e disciplina, desde pequeno. Mas, hoje em dia, olhando para a vida, acho que eu gostaria de ser jornalista, por exemplo. Acho interessante. Várias outras atividades também me fascinam. Mas há aquela velha diferença entre o ‘‘querer’’ e o ‘‘poder’’. Eu gostaria muito de ser uma boa instrumentista, mas acho que isso nunca ia conseguir. Não tenho talento nenhum.

Você sempre foi uma moça namoradeira (risos). Você se casou cedo, com 17 anos. Por quê?
R: Acho que, pelo contrário, sempre fui muito casamenteira. Casei porque estava apaixonada. Grávida e apaixonada. Ao longo da minha vida, me casei quatro vezes.

Como foi ter quatro filhos enquanto era profissional? Atrapalhou ou conseguiu levar numa boa?
R: Isso na realidade me ajudou muito Os momentos em que estive grávida funcionaram como uma válvula de escape para a “Isabel” dentro do esporte. Eu podia olhar para minha atividade com um distanciamento maior, ser mais critica comigo mesma. Obviamente que, na parte física, há pontos negativos. Você pára, se afasta, tem que suar a camisa para voltar. Mas os filhos também serviram como uma motivação extra para resgatar a forma ideal. Sem dúvida nenhuma eu ganhei mais do que perdi. Em se tratando da vida pessoal, eu só ganhei.

Dos quatro filhos que tem, três seguiram o rumo do vôlei. Será que a mãe influenciou nessa escolha?
R: A mais velha, Pilar, foi a que mais incentivei. Levei pra escolhinha e tal, mas, por sinal, teve efeito contrário. É á única que não joga. Já com os outros, agi de forma diferente. Fui lhes apresentando outras atividades, como natação, teatro. Nunca houve pressão da minha parte, não era importante pra mim eles jogarem, de forma alguma. Eles já viviam muito o mundo do vôlei e, se quisessem, iriam falar comigo por livre e espontânea vontade. E foi o que aconteceu. Cada um no seu momento. De alguma forma, isso acabou nos aproximando. A gente bate papo, viaja juntos. Atualmente, sou técnica das minhas filhas.

E como é essa relação, de mãe e técnica ao mesmo tempo?
R: É difícil, mas a gente aprendeu a lidar com isso. Tenho uma relação muito próxima e intensa com o vôlei. E é por isso que esse assunto se restringe ao trabalho. Se não satura. Tem quem pense que nossa vida se resume ao vôlei. Que quando não estamos treinando, só conversamos sobre vôlei, só assistimos jogos de vôlei. Mas nossa vida é muito mais, transcende isso tudo.

Você já foi craque tanto nas quadras quanto nas areias. Qual a principal diferença entre elas?
R: Eu me formei no “in door” e mais tarde fui pra areia. Há muitas diferenças entre os dois, desde o piso, até as condições climáticas, como chuva, vento e sol. Confesso que adoro ambos, mas atualmente tenho uma ligação muito maior com a praia, quase nem acompanho o vôlei de quadra.

Você provavelmente nunca me viu, mas eu já cansei de te ver jogando na Garcia D’Ávila, pois ando muito por aquelas bandas. O que mais você faz em Ipanema? O Bairro tem algum significado especial para você?
R: Eu tenho uma relação muito estreita com esse Bairro. Apesar de morar na Gávea, fui nascida e criada em Ipanema. Amo sua praia, principalmente de manhã cedinho e final de tarde. Vou lá já faz um tempo, mas a cada dia me surpreendo com sua beleza. Esteja o céu nublado ou limpo, é sempre bom curtir um pór-do-sol em Ipanema. Não me canso.

Há outras praias no mundo que valorizam o vôlei como Ipanema?
R: Na Califórnia você vê muitas redes, o pessoal também pratica bastante. Mas não como aqui. No Rio é algo especial. Você vê gente de todos os níveis, classes e idades. Desde criancinhas e pessoas da terceira idade, até profissionais, gente rica e gente pobre se divertindo juntas. Sempre num clima de camaradagem. É um esporte bastante democrático.

O Brasil, todos nós sabemos, possue vários problemas sociais e ambientais. Você já participou de campanhas contra, por exemplo, a despoluição da Baía de Guanabara. Você acredita que ícones e estrelas do esporte, como você, devem se empenhar nessa batalha?
R: Isso é muito pessoal. Cada um tem que se envolver com aquilo que se toca, se mobiliza. Ontem, por exemplo, fui num evento contra a violência à mulher. É claro que às vezes há um maior eco, uma maior repercussão, se alguém de grande expressão se pronunciar em prol de causas sociais. Mas acredito que isso seja dever de todo cidadão. A pessoa, seja ela um ídolo do esporte, um artista de TV ou um vendedor ambulante, deve se preocupar em se comportar de maneira descente em relação à sua cidade, ao próximo. Isso deve se refletir numa percepção e atitude diárias. Há tanta gente morrendo de fome por aí, tanta agressão ao meio ambiente. A gente deve se conscientizar de que uma ajuda, por menor que seja, faz uma diferença.

Como é a sensação de se tornar avó?
R: Foi um grande pressente da vida, muito emocionante. Adoro conviver com o João, meu neto, ele é muito divertido. Eu, como toda avó, não poderia deixar de ser coruja. Gosto muito de uma frase que a Danusa me contou: virar vó é muito louco, mas mais incrível ainda é perceber que aquela sua filhinha virou mãe. É um impacto danado, mas tudo de bom.

Por Pedro Farina

Publicado por: ipanemaemcena | Novembro 29, 2007

Ipanema de Fé

Todos os dias, por volta das seis da tarde, a Igreja de Nossa Senhora da Paz fica lotada de fiéis, entre eles muitos moradores de Ipanema, para assistir a missa celebrada pelo carismático Padre Jorjão. Neste mesmo horário, a Sinagoga Agudat Israel reúne a comunidade judaica para orar, há poucos quilômetros da Praça Nossa Senhora da Paz. A pluralidade religiosa não para por aí, é só seguir mais algumas ruas para chegar no Lar Espírita Paulo de Tarso. Definitivamente, Ipanema é um bairro de fé.

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Todos os anos, o páraco da Igreja de Nossa Senhora da Paz, Padre Jorjão, organiza dezenas de encontros com jovens paroquianos, a maioria de Ipanema. “A maioria deles mora aqui, porém sempre convidamos pessoas de fora do bairro para participar dos encontros, a Paz (Igreja) sempre foi um ambiente para todos os católicos, não importa o bairro.” conta o padre. A procissão que comemora o dia da padroeira Nossa Senhora da Paz, um dos eventos católicos que mais mobiliza fiéis no Brasil, reúne todo ano milhares de pessoas, e mobiliza muitos moradores de Ipanema.

A Sinagoga Agudat Israel, que fica na rua Rua Barão de Iguatemi (nº306), é o ponto de encontro para a comunidade judaica de Ipanema. Por ser próximo ao colégio judaico Elizer, muitos jovens procuram a sinagoga para orar e pedir conselhos aos Rabinos. “Quando preciso por em dia minhas orações não deixo de passar no Agudat, apesar de morar em Copacabana, gosto de ir até Ipanema e aproveitar para curtir o bairro. O ambiente de lá (Agudat) é muito agradável.” é o que conta Marcos Klein, estudante de publicidade da PUC e judeu.

Os espíritas, que moram em Ipanema (ou não), podem procurar o calmo Centro Espírita Lar Paulo de Tarso, que desenvolve um trabalho de estudo da religião baseada nos estudos de Alan Kardec. Apesar de ser um lugar pequeno, na rua Gomes Carneiro, 112, o centro consegue reunir mais de 30 fiéis por encontro (todas às terças e quintas, 17h). João Marcelo Siqueira, de 20 anos, é espírita e mora em Ipanema há 2 anos, e prefere outros centros ao de Ipanema. “Acho o bairro um pouco agitado para um centro, quando morava em Santa Catarina, as reuniões eram muito mais calmas. Aqui tem essa barulheira toda.” conta João.

Não importa a fé de cada um, desde a mais ortodoxa sinagoga, até a mais liberal das igrejas católicas, em Ipanema o ambiente é de amizade. João Marcelo e Marcos Klein, espírita e judeu, respectivamente, são grandes amigos dentro e fora de suas religiões. “Eu já fui à Sinagoga do Marcos de bobeira, para conhecer mesmo” conta João aos risos. “Ainda não fui ao Centro dele (João), mas iria numa boa” responde Marcos.

Em tempos de preconceito religioso, dois moradores de Ipanema mostraram que podem conviver em clima de amizade, sendo de duas religiões com crenças totalmente distintas, no mesmo bairro.

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IPAEMCENA: Qual é a faixa-etária do público que vem para o Estação Ipanema? O que eles procuram no Estação?

RAI: O público daqui é mais idoso. Eles preferem o Estação pelos tipos de filme que passamos aqui, tomam um cafezinho e ainda batem papo. Além disso, eles compram muitas lembranças na loja do 1ºpiso, que vende artigos que relembram os filmes antigos. Os jovens acham o ambiente confortável e gostam de comer no nosso Café, mas não costumam ficar muito tempo aqui. Os idosos ficam horas, após verem os 2 filmes e tomar muitos cafezinhos.(risos)

IPAEMCENA: Você começou a trabalhar como bilheteira no Grupo Estação, após muito tempo trabalhando chegou à gerência. Como foi essa promoção?

RAI: Eu comecei trabalhando de bilheteira no Paço Imperial, que é um cinema bem menor que o Ipanema, e foi lá que eu aprendi a lidar com o público. Foram 4 anos trabalhando como bilheteira até chegar à gerência. Me sinto realizada no meu trabalho. É super importante dar bons exemplos para os mais novos.

IPAEMCENA: Existe alguma diferença os clientes de Ipanema e os de Botafogo na forma de tratar os funcionários ?

RAI: Aqui (Ipanema) os funcionários reclamam do ‘nariz empinado’ de alguns clientes, mas não é a maioria. O pessoal da 3ª idade, em Ipanema, é mais polido no diálogo, gostam de dar bom dia, boa tarde e boa noite para as bilheteiras. Às vezes aparecem uns garotões que acabaram de sair da praia e são mal educados, acham que tudo tem que ser rápido. Em Botafogo têm de tudo, é mais variado.

IPAEMCENA: Como é gerenciar uma filial do Grupo Estação num bairro como Ipanema, onde as pessoas exigem mais dos serviços ?

RAI: Tudo tem que estar impecável. Se os clientes não gostarem da primeira vez que eles vem, a tendência é que eles não voltem. Por isso, gosto de manter tudo limpo e impecável. O ar-condicionado, por exemplo, está sempre numa temperatura agradável, nunca muito frio. Toda vez que alguém reclama de algum serviço procuro solucionar aquilo no ato. A clientela me chama pelo nome, e reclama mesmo.

IPAEMCENA: Você trabalha em Ipanema e mora no Flamengo. Você já pensou em se mudar para perto do Estação ?

RAI: Não. Eu gosto muito do Flamengo, não troco minha casinha por nada. Ipanema não faz o meu estilo, eu gosto da população de Ipanema, mas para trabalhar, para conviver mesmo prefiro o Flamengo. É a mesma comparação entre o Café Lamas e o Garota de Ipanema, eu gosto muito mais do Lamas.(risos)

Publicado por: ipanemaemcena | Novembro 29, 2007

Próxima parada: Estação Ipanema

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Quando o assunto é pegar um cineminha, e ainda saborear um bom café, enquanto relaxa num ambiente calmo, diferente dos outros cinemas da cidade, o Estação Ipanema é a melhor escolha. O cinema recebe no total 324 pessoas, em duas salas, e se destaca dos demais pela boa escolha dos filmes, além de todo o charme da decoração temática.

Em 2001, o Grupo Estação, que administra outros três cinemas (Botafogo, Unibanco e Paço Imperial), ampliou suas fronteiras para Ipanema no intuito de suprir uma necessidade do bairro por mais salas de cinema. O estudante Paulo José, de 18 anos, conta que a escolha dos filmes do gênero cult é um dos diferenciais do Estação. “Os outros dois cinemas (Casa de Cultura Laura Alvim e Faculdade Candido Mendes) não escolhem os bons filmes em cartaz, principalmente do estilo cult,a especialidade do Estação.”, diz Paulo.

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Além dos elogios pela boa escolha dos filmes em cartaz, o Estação coleciona uma legião de fanáticos pelo gênero cult, que chegam a procurar a bilheteria para saber os próximos lançamentos. A simpática e famosa bilheteira do Estação Alicia Pessanha, de 40 anos (há seis no Estação), é o principal alvo dos fãs na hora de pedirem informações por novos filmes, porém a forma com que os moradores de Ipanema tratam os funcionários não foi bem avaliada por ela. “Aqui (Ipanema) eles são muito mais ‘narizinho empinado’, quando trabalhei em outras filiais do grupo a relação com o público era muito mais carinhosa.”.

Porém, esta avaliação sobre o perfil do público de Ipanema é bem diferente da opinião da gerente do Estação de Ipanema, Raimunda Rodrigues. “Ipanema é Ipanema. Não tem como comparar, o público daqui é mais idoso, por isso são sempre cordiais, e alguns até viram amigos fora das salas de cinema” conta Rai, como é chamada. A melhor exemplo de amizade funcionário-cliente do Cinema Estação é a história de Alicia, a bilheteira do estação, e Lícia, cliente há mais de quatro anos. As amigas se conheceram quando Lícia, moradora de Ipanema. Procurou um filme e comprou o bilhete das mãos de Alicia. Após alguns encontros elas tornaram-se grandes amigas. “Os funcionários daqui tratam os clientes muito bem. Para ficar amiga da Alicia foi muito fácil” confessa Lícia.

O Estação Ipanema supriu uma necessidade do bairro por novas salas de cinema. Antes da criação da filial, Ipanema só tinha 3 salas, na Casa de Cultura Laura Alvim, para 155 pessoas. Segundo o Instituto Pereira Passos, o bairro de Botafogo possui 3.924 poltronas, divididas em 22 salas, um número significativo comparado com Ipanema, que no total têm apenas 359 pontronas, divididas em 5 salas.

Para assistir um dos lançamentos do Estação Ipanema, e ainda aproveitar todo o espaço dos cinemas e café, o endereço é Rua Visconde de Pirajá, número 605, em Ipanema, claro.

Publicado por: ipanemaemcena | Novembro 29, 2007

Guilherme Adolpho Maranhão Aguiar

Um jovem de 21 anos. Estudante de economia da Fundação Getúlio Vargas. Apaixonado pelo tricolor das Laranjeiras. Têm um irmão e vive com a mãe. Toca guitarra na banda Chewbacca is in the Monorail. Estes são fragmentos da história de um morador de Ipanema.

Guilherme Adolpho Maranhão Aguiar, conhecido como Guilherminho, é um sujeito baixo e muito carismático, apaixonado pela música e por sua família. Mora em Ipanema há 5 anos, na Rua Rainha Elizabeth, próximo à avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde morou por 10 anos. Estudou toda sua vida no Colégio Santo Inácio, onde conheceu Guilherme Ripper, grande amigo, vocalista e parceiro na idéia de criar uma banda de rock. Em 2005, se formou no colégio GPI, em Ipanema, e logo no ano seguinte ingressou na FGV para cursar Economia. Em 2006, sofreu uma perda familiar que marcou sua vida, a morte de seu pai, Adolpho, aos 77 anos.
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Apesar de ter perdido o patriarca, e a pessoa que arcava com as contas da família, Guilherme não se sentiu pressionado com a responsabilidade e passou a administrar as despesas domesticas. Sandra Guido, de 54 anos, mãe de Guilherme e Gustavo Adolpho (ambos levam o nome do pai), divorciada há 12 anos, mantinha boa relação com Adolpho. Trabalha vendendo bijuteria em bazares há 15 anos. Gustavo Adolpho, o irmão mais de Guilherme, mora em Campos, onde cursa Zootecnia na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), ensinou o irmão a tocar guitarra, apesar de não tocar mais, se orgulha de ter ensinado o irmão que hoje leva a sério o ofício.

Em Ipanema, Guilherme vai à praia no Posto 8, onde joga sua pelada de quinta-feira à noite. Toma cerveja com os amigos no Shennenigans, pub irlandês, que segundo ele, toca suas músicas favoritas. Em sua opinião, o melhor restaurante de Ipanema é a pizzaria Capricciosa, onde come a tradicional pizza de calabresa. Todos os dias pela manhã compra pão e outros produtos para o café da manhã, no Zona Sul da Praça General Ozório. À tarde, estuda vai para a faculdade, em Botafogo.

Guilherme têm muitos planos para o futuro. Primeiramente, pensa em se formar em Economia na FGV, e depois disso morar em São Paulo, onde o mercado de trabalho é mais amplo para sua área. Além disso, quer continuar compondo músicas e tocando guitarra em sua banda, criar uma ONG para ajudar menores carentes e viajar pela Europa para pisar pela primeira vez no velho continente.

Publicado por: ipanemaemcena | Novembro 22, 2007

Violência assusta moradores

O Rio de Janeiro, no decorrer do século XX, acostumou-se a viver com a violência que se transformou normal não só no Brasil, mas por todo o mundo. E em Ipanema, que apesar de ser um bairro de elite, com o metro quadrado mais caro da cidade, não é diferente. Fatos recentes, principalmente de Junho para cá, como assaltos e assassinatos, começam a assustar os moradores do local.

Grupos de vândalos se tornaram freqüentes no bairro. Em agosto, o empresário Rive Nogueira e sua noiva foram espancados por cerca de uma dezena de jovens, que estavam em uma festa no bairro. A causa da briga seria que a vítima tivesse se insinuado para a namorada de uma das pessoas que o agrediram.

Um outro grupo, de dez assaltantes, rendeu os moradores de um prédio na Rua Piragibe Frota Aguiar, também em agosto. O porteiro foi rendido e ficou preso na lixeira com a família. Os moradores foram rendidos, feitos reféns, e tiveram jóias, aparelhos eletrônicos e dinheiro roubados. Uma das vítimas teve o carro roubado, que depois foi encontrado em um dos acessos ao morro do Cantagalo.

O fato que mais comoveu a cidade foi a morte do italiano Giorgio Morasse, que veio ao Brasil para ir ao casamento do filho, em Minas Gerais. O turista foi assaltado por um ciclista enquanto passeava pelo calçadão. Ele acabou brigando com o assaltante na tentativa de recuperar um cordão de ouro, e foi morto após ser atropelado por um ônibus.

A moradora Maria Zilda Chagas, de 34 anos, e que vive na Rua Vinícius de Moraes, disse que cansou da violência. Após ser assaltada quatro vezes em menos de três semanas, sendo que segundo ela, duas vezes pela mesma pessoa, ela decidiu se desfazer de tudo o que tem na cidade e se mudar com seu filho de sete anos para Pipa, no Rio Grande do Norte, pequena cidade luxuosa e turística de praia, onde irá montar um hotel para estrangeiros. Maria Zilda pretende ficar por lá por um bom tempo.

Já Fernando Coimbra, de 47 anos, que mora na Avenida Vieira Souto, teve seu apartamento roubado recentemente, e sua filha, de 15 anos, estudante do Colégio São Paulo foi assaltada, resolveu dar mais uma chance para a cidade, mas em outro bairro. Ele vai se mudar, com sua família para a Urca, onde julga ser o lugar mais seguro do Rio de Janeiro. Se não der certo, pretende ir para Portugal.

Depois do caso de Giorgio Morasse, a polícia resolveu aumentar um pouco o número de policiais e viaturas fazendo ronda no local, já que o caso teve repercussão também na Itália. Moradores fizeram uma manifestação terça-feira passada para pedir paz, após mais cinco turistas terem sido assaltados no bairro.

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