Publicado por: ipanemaemcena | Setembro 25, 2008

Cantagalo

cantagalo.jpg

Comprei uma bike essa semana. Caloi, guidon alto, 21 marchas. A vendedora quase me convenceu a levar uma mais cara, com amortecedor e aro de alumínio. Mas sabe com é, no Rio de Janeiro, nunca se sabe. Segundo a 14a DP do Leblon, em apenas um dia na Zona Sul, ocorrem 12 assaltos e até 3 bicicletas são roubadas – o número deve ser bem maior porque isso é apenas o que se registra. Em vez de investir mais na bicicleta, comprei a melhor tranca da loja. Ainda assim, resta sempre o receio de deixá-la muito longe do meu raio de visão. Quando vou à praia, por exemplo, deixo na barraca do Fábio. No trabalho, que fica no alto de uma ladeira, ao lado do Morro do Cantagalo, prefiro trazê-la para dentro. Até semana passada…

“Pode deixar o ‘camelo’ preso aí mermo, ‘playboy’, aqui ninguém rouba não!”, escutei do porteiro do prédio em frente. Fiquei meio sem jeito, disse que a bicicleta era novinha, a maresia me veio como desculpa. Ele deu uma risada marota e eu uma sem graça. Entendemos o que um queria dizer ao outro. Nos despedimos antes de entrar na casa onde trabalho. Esse diálogo, que durou no máximo 15 segundos, cutucou minha cabeça. E me incomodou.

bike.jpg

A verdade é que existe uma grande discriminação em relação ao “favelado”. Esse termo adquiriu uma conotação pejorativa, e tem embutida uma série de preconceitos. “Favelado é ladrão, é bandido, mal-educado, é o que tem de pior na sociedade”. Que ilusão. Passe um dia na favela e verás. É um dos poucos lugares onde ainda existe o respeito. Pode deixar o “barraco” aberto. Ninguém vai invadir, ninguém vai te roubar. Pergunte a algum carioca – do “asfalto”- se já foi assaltado. Se não foi é raridade. No morro, existe uma solidariedade genuína, você encontra um sorriso verdadeiro, mesmo que sem dente. Churrasquinho de gato rolando, pode colar junto, ninguém vai te cobrar entrada. A festa é pra todos.

Não quero idealizar a favela, sei que não é o paraíso. Em vários momentos, quando há brigas de gangue, pode tornar-se o inferno. As regras no morro são ditadas pelo poder “paralelo” do tráfico de drogas. As disputas pelos pontos da droga são um dos grandes responsáveis para que o número de mortes no Rio de Janeiro ultrapasse os da Guerra no Iraque. Alguns moradores acham mais transparente a lei do morro. “Não se pode transgredi-la. Se você ficar tranqüilo, não fizer nada de errado, nunca vão levantar a voz contigo. Agora, se tu der uma de X-9 (vacilão), aí não tem perdão. Aqui se faz, aqui se paga. Diferentemente do asfalto, onde os políticos corruptos metem a mão em milhões de dólares e no dia seguinte viajam de jato à sua ilha particular”, exclama Carlinhos, ex-traficante e atualmente vendedor de barraca no Arpoador.

No decorrer desse século, a explosão demográfica, o declínio da economia e o avanço da tecnologia fizeram da favela a principal vítima de exclusão social, incluída apenas nas invasões do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) e do CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais). Junto a isso, a classe média, medrosa – não sem motivo – se enclausurou em grades, muros e egos, tornando a Cidade Maravilhosa cada vez mais partida. Segundo dados do IBGE, existem quase 600 favelas no Rio de Janeiro (só perde para São Paulo, que ultrapassa esse número), e, atualmente, fica difícil não encontrar pelo menos uma em cada bairro da cidade. Principalmente nos nobres, onde a necessidade de mão de obra barata fez com que empregados se aglomerassem por perto.

É nesse contexto que a Favela do Cantagalo se forma, ao lado de um dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro. Enquanto no alto da ladeira o m2 não chega a R$1.000,00, em Ipanema ele gira em torno de R$6.000,00. Os apartamentos mais caros do Rio se encontram a poucos metros do Morro, de frente para a praia – no edifício Cap-Ferrat, por exemplo, não se encontra um por menos de 7 milhões de reais. A diferença não está só no preço, mas na quantidade de pessoas por moradia. No asfalto, 3 pessoas, em média, dividem o mesmo espaço, enquanto no Cantagalo esse número chega a 5.

No morro, não se paga impostos nem condomínio. O “menguéle”, como chamam o salgado com refresco, sai por apenas R$1,00. Parece barato, mas não se compararmos com a renda média do asfalto. Enquanto na Favela não ultrapassa o salário mínimo, em Ipanema chega à faixa de R$2.500,00 mensais. “Sem contar que aqui em cima falta luz e água, enquanto sobram baratas e esgoto”, acrescenta Bezerra, presidente da Associação de Moradores do Cantagalo.

Carlinhos, nascido e criado na Favela do Cantagalo, considera injusta essa situação, e critica os ricos pela hipocrisia. “Essa burguesia ganha milhões e, mesmo vendo a gente cada vez pior, só sabe reclamar. Ajudar que é bom, nada”. Mesmo assim, ele garante que nunca trocaria de vida. “Já vivi até fora do Brasil, em lugares como Argentina e Itália. Mas isso só serviu pra me mostrar que eu gosto mesmo é daqui, do morro, da minha terra. Aqui eu tenho liberdade”, ele declara. Já Bezerra afirma que, se tivesse condições financeiras, trocaria o morro pelo asfalto: “Não seria nada mal”.

Desconfortos à parte, há quem se aproveite da localização da favela. Jonathan Rodrigues, de 21 anos, por exemplo, já catou muito papelão e latinha no asfalto. O jovem desmistifica essa história de que favelado só teria uma opção na vida: entrar para o tráfico. “Morar aqui é maravilhoso, pois estou em plena Zona Sul do Rio. Além da praia, do shoping, há várias opções de trabalho. Já catei muita lata durante o carnaval, 3, 4 sacos de lixo davam uns R$30,00 no total. Nunca precisei das drogas pra sobreviver”. Atualmente, é agente de projetos do AfroCirco – um projeto atuante no Morro Cantagalo pertencente ao Grupo Cultural AfroReggae, destinado à inclusão social através da arte. “É muito bom fazer parte de um grupo como esse. A gente aprende a ser uma pessoa melhor, a dar a mão ao outro, a ser mais solidário. Fora o fato de viajar para vários lugares do mundo!”. Mas ele garante: “Não troco o morro por nada. Quero ser enterrado aqui.”

afro-rrrr1.jpg afro-rrrrr.jpg

Mano Brow, pintor desde moleque, é outro personagem do morro que sabe tirar proveito do asfalto. “ A minha galeria é pro público, a céu aberto, pra ricos, milionários, pobres e mendigos. Fico ali na praia de ipanema, Posto 9.” Para os gringos, um quadro chega a sair por R$ 500,00, mas, na favela, ele garante: “não vendo nada, só dou”. O tema de suas telas é bem carioca. Seja o carnaval, a favela, o samba, o mar de Ipanema ou de Copacabana. “Eu pinto o que é belo, gosto das cores. Retrato o que vivo e, ao mesmo tempo, o que não vivo. Porque, irmão, sem demagogia, nossa vida aqui no morro é cruel. Às vezes falta um pão, uma água, uma roupa. Tu pode ver o estado do meu barraco, tá quase caindo.”

mano-1.jpg

Mesmo com todas as dificuldades, ele não desiste de (sobre) viver da arte, e apenas dela. “Graças a Deus, quando tô quase no fundo do poço, vem uma ajudinha lá de cima e alguém compra uma tela.” Ele critica a falta de suporte do governo, que, até agora, só favoreceu os grandes empresários. “Tu acha que a gente pinta de graça? Tem que comprar tinta, tela, gasto mais de cem reais pra fazer um quadro. Essa Lei Rouanet (lei que incentiva a cultura), pra mim, ainda não existe. Só quem já tem grana consegue algum retorno.” O artista comenta que o Morro onde vive é um ótimo pólo de investimento: “Meu broder, posso te garantir que nenhuma favela tem tantos pintores com talento, que vivem da arte, como aqui. Imagina com um incentivo? Ia ser o maior barato.”

mano-2.jpg

“A arte é o único meio do jovem da favela se desvirtuar do caminho das drogas, do dinheiro fácil. Se o moleque tá no perrengue, a família sem grana, tu acha que ele não vai entrar pro tráfico pra ganhar mil conto por semana?” Quando Mano Brow menciona a “arte”, ele se refere a inúmeras outras atividades, como esporte, teatro, música, etc. O problema é a falta de oportunidade: enquanto sobra para a vaga de “aviãozinho” (garoto que faz o transporte da droga, quase que um “primeiro emprego” do traficante), falta para os estudos. A favela precisa de um empurrão, da ajuda do Governo.

Como o pintor diz, “a arte salva vidas”. Ou, no sentido mais amplo, só a educação nos torna cidadãos.

Por Pedro Farina


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: