Publicado por: ipanemaemcena | Setembro 25, 2008

Aonde reina o sol

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Vista de cima, a orla que vai do Leblon ao Arpoador parece estar dominada por um gigante formigueiro entre o Hotel Sol-Ipanema e a Rua Vinícus de Moraes – não apenas nos fins de semana. Mas o que fazem todas essas pessoas amontoadas e espremidas, enquanto ao redor há tanta areia vazia? Primeiro lembremos que o ser humano, em especial o carioca, não vê graça nenhuma em ir à praia sozinho – ainda que anseie eternamente por uma praia deserta. Em segundo lugar, a praia, apesar de ser um espaço público, está sujeita a segregações. Há tribos específicas de acordo com a faixa de areia ocupada.

Nos anos 60, a galera do surfe se concentrava no Arpex, onde rolavam as melhores ondas da orla; já os intelectuais bebiam uma no bar Veloso – atual Garota de Ipanema – e partiam para praia na Montenegro, a partir dos anos 80 conhecida como Rua Vinícius de Moraes, em homenagem ao ilustre cantor. No início da década de 70, um novo “point” surge, graças a uma obra da prefeitura. O Píer, que fora criado por causa de um Emissário Submarino e ficava entre as Ruas Farme de Amoedo e Teixeira de Melo, virou a “sensação” do momento. Proporcionou boas ondas não só no mar, mas nas areias de Ipanema. Ali nasceram as “dunas do barato”, ou dunas da Gal”, local predileto da cantora. O ambiente descontraído reunia surfistas, artistas, hippies e intelectuais. A festa, porém, tinha tempo limitado.

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Em 1974, três verões após seu nascimento, o Píer foi destruído, deixando órfãos inquietos. Passado um ano, o Posto 9 foi inaugurado, em frente ao Hotel Sol-Ipanema, para felicidade geral da “esquerda festiva”. Era época da ditadura militar e o movimento de contracultura começava a se formar. O Sol e o Posto 9 se tornaram sinônimos e se firmavam – mesmo que “inconscientemente” – como um ponto de resistência que perdura até hoje.

– As pessoas insatisfeitas tomavam dois rumos: oposição política ou ‘desbunde’. O Posto 9 era povoado pelos desbundados, o que não quer dizer alienados. Por incrível que pareça, havia algo de político em fumar um baseado, no sentido de rejeitar o sistema. Mas não era este seu enfoque principal e talvez por isso não tenha sofrido repressão militar – comenta o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), defensor da legalização da erva e protagonista de uma das histórias que ajudaram a celebrizar o Sol, batizada de “Verão da Abertura”.

Durante seu exílio, Gabeira fizera algumas viagens à Grécia, onde calção de banho era coisa de outro mundo. De volta ao Brasil e à Ipanema, sem roupa de praia, foi ao Posto 9 com uma calcinha de biquíni – presente de sua prima. Quando toquei no assunto, desconversou : “Isso não foi nada.” Bem, para a mídia foi tudo. O fato é que qualquer chuvisco naquela praia que reinava o Sol prenunciava tempestade. E assim foi com a tanga crochê de Gabeira, com o topless, com os gays, e tudo de novo que ali surgia – que não era pouco. A fama atraiu problemas e um penetra: a polícia.

O intruso não era bem visto, e o pior, não havia como detê-lo: a PM chegou a armar uma barraca no meio da praia. O jeito foi usar a cabeça, ou melhor, a boca: através do som de apitos, as pessoas alertavam sobre a chegada dos “vermes” (gíria atribuída aos policiais). O verão de 1996 ficou conhecido como o do “Apitaço”. “Atualmente, algumas cidades utilizam o apito como mecanismo de defesa, prova de que Ipanema é vanguarda até mesmo na maneira de fazer protesto”, ratifica Gabeira. Ainda há resquícios dessa tática no Posto 9, na forma de assobios.

Mas não é só de ervas, peitos, cangas e apitos que vive esse pequeno trecho de praia. Grande parte da cultura brasileira foi formada em suas areias. O cinema, a psicanálise, a poesia, o teatro, a música e a poesia borbulhavam e se criavam nesse meio, freqüentado por Caetano Veloso, Glauber Rocha, Arnaldo Jabor, Cazuza, Leila Diniz e outros inúmeros nomes significativos na criação da nossa identidade. A canção “Garota de Ipanema” – um dos maiores sucessos da música mundial – foi inspirada no doce balanço de uma moça que caminhava em direção aquele mar, sob olhares atentos de Vinícius e Tom Jobim. Os primeiros passos do próprio Gabeira rumo à política também aconteceram por ali, onde conheceu parceiros de trabalho, como Carlos Mink e Alfredo Sirkis, com quem fundou o PV.

“Podemos definir o Posto 9 como um território de vanguarda, de novas experiências, e cuja convivência nem sempre foi pacífica”, esclarece Scarlet Moon, atriz, jornalista e escritora. Ex-figura carimbada do Sol durante os sete dias da semana – apesar de não esconder a preferência da praia nos dias de “trabalho” –, ela caracteriza o local como “um ponto de contato social, econômico e sexual.” Regina Casé, sua amiga íntima, conheceu o segundo marido no Sol, enquanto a própria Scarlet trocou os primeiros olhares com o cantor Lulu Santos – foram casados por mais de 20 anos – por aquelas bandas. Muitas outras histórias sobre essa praia podemos encontrar em seu livro “Areias Escaldantes, Inventário de uma Praia”, escrito em 1999.

Memórias que ficarão guardadas “com muito orgulho e carinho”, como ela mesmo admite. Scarlet Moon não freqüenta mais o Posto 9. Gabeira também não. Mas ambos garantem que ele continua o mesmo, igualzinho. A atriz polivalente afirma que a “longevidade” de suas areias escaldantes é o que mais lhe impressiona. O “ipanemense jurássico” – como define a escritora em seu livro – declara, com veêmecia: “A única coisa que mudou nesse lugar foi a qualidade da água e da areia!”. Disto não há de se negar.

O comércio local também tem suas particularidades e é intenso. Um vendedor ambulante ou de barraca que seja esperto não tem dúvida de que ali é um dos melhores lugares para fincar seu negócio. O consumidor é formado majoritariamente pela classe média, praticante de esportes variados – como “ “fut-vôlei”, frescobol, surfe, etc – e movido pela larica, apetite despertado pela cannabis A própria relação dos comerciantes com os freqüentadores é diferente, mais íntima. Todos são amigos. É possível deixar seus pertences nas barracas sem desconfiança, até mesmo abrir uma conta. Caetano Veloso, segundo Scarlet, dizia que só faltava cinzeiro para fumantes jogarem cinzas e guimbas de cigarro. Hoje não é diferente.

Não se assuste se alguém berrar no seu ouvido, não é arrastão. É o vendedor de abacaxis, que, ao invés de anunciar seu produto normalmente, inventou uma nova forma de chamar a atenção das pessoas. Ele chega de fininho e “AH… bacaxi!”. Júlio comenta: “Aqui a galera é mais tranqüila, não esquenta muito com essas coisas. Imagina se eu fizesse isso em Copacabana, numa roda de velhinhos!? Tava frito.” Mas ele admite já ter entrado em algumas frias. “Sempre tem alguém um pouco mais mal-humorado, que acaba se irritando. Eu me pergunto por quê. Com sol, água e abacaxi, não falta mais nada.” Ele garante manter o seu estilo, pois, no final das contas, o saldo é positivo. Só não vale causar infarto.

Ele não é o único a lutar com originalidade pela atenção dos praieiros, distraídos pelos corpos sarados, “altinhas” – espécie de “fut-volei”, mas sem rede e na beira d´água – e tantas outras atrações do Posto 9. Há um moreno de cabelo enroladinho que vende “brownie” sem parar, por R$3,00. Sua “logo” é: “Olha a larica aí, gente!”. Já o moço do açaí – R$4,00 -, não se desgruda de seu auto-falante e, fazendo uma voz bizarra, arranca risadas e trocados da galera. Há também o Mate com limão, cada um em um galão, que veio a substituir o antigo “limãozinho”. Você é quem regula a quantidade desejada; sai por R$2,00 o copo de 300ml, com direito a “chorinho”. O mais famoso é o Marcelo. Invariavelmente com chapéu de palha, ele é inconfundível, assim como a qualidade do seu Mate. Conhecido pelo nome no Posto 9, ele só vende por ali: “Cara, eu chego a fazer 400 contos num domingo. Vou do Posto Nove até no máximo a Garcia. Aqui tem muito mais gente, e a galera tem mais sede, né (rs) !?”. Ah, e na compra de um mate leva-se um brinde: seda – e nao é “colomy”.

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Como vocês podem ver, esse pequeno grande trecho de praia é realmente um mundo à parte, um lugar especial. No verão, o sol se põe no horizonte, e é reverenciado por seu público de pé, com palmas, assobios e sorrisos. Atualmente, com o aumento do número de pessoas, o Posto 9 está crescendo, havendo um deslocamento para o chamado “Coqueirão”, entre as ruas Maria Quitéria e Joana Angélica. Quem pretende chegar lá, vá em frente, mas não se incomode com o cheiro da “marola” ou com a areia no olho por causa da “altinha”. Terá de se adequar a suas regras, que, na verdade, se resumem a uma só: é proibido proibir.

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Por Pedro Farina


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