Publicado por: ipanemaemcena | Novembro 29, 2007

Mãe só tem uma?

Quem mora na Zona Sul certamente já ouviu falar em Mãe Valeria de Oxóssi, ou pelo menos se deparou com algum de seus cartazes, espalhados por quase todos os postes de Leblon e Ipanema. Motivo de reclamação para uns, para outros expressa agradecimento. “Eles se vêem atendidos e querem me presentear. Agradeço muito, mas já pedi que não façam isso, pois concordo que suja a cidade”, comenta Mãe Valéria.

O “slogan” – Traz a pessoa amada em três dias – deve despertar a curiosidade de muita gente. Afinal, quem nunca teve um amor perdido? Por outro lado, há também o receio de se expor a um estranho. Principalmente em nossa sociedade, extremamente católica, onde religiões como o Judaísmo, Daime, Espiritismo, entre outras, sofrem preconceito e estranhamento da população.

No meu caso, fui sem hesitar. Peguei seu contato em um dos cartazes e liguei para a famosa Mãe Valéria de Oxossi. Não era essa, porém, com a qual iria me consultar dali a algumas horas. Esta morava na Avenida Lúcio Costa, na Barra. Fiquei um pouco confuso, confesso, pois estava certo de que vira algum cartaz indicando Ipanema. Desci a ladeira de casa e verifiquei em outros postes. Foi aí que percebi algo interessante : o velho ditado “mãe só tem uma” não poderia se aplicar às Valérias. Liguei para o outro número que havia encontrado e marquei consulta com uma nova Mãe, de mesmo nome, para as 17 horas. Só que dessa vez em um prédio de esquina, na Rua Maria Quitéria. Em Ipanema.

Toquei o número de seu apartamento e, curioso, olhei para cima, à sua procura. Não deu outra. Logo Valéria apareceu na janela do primeiro andar e liberou minha entrada. Misteriosa. Subi pelas escadas até seu porta, já entreaberta. Nos cumoprimentamos e, logo em seguida, fomos para seu local de trabalho. Estava quente. Velas acesas. Mesmo assim, o quarto, cheio de santos de aproximadamente um metro de altura, continuava escuro. Ao ser indagada sobre a existência de outras Valérias de Oxossi, a mãe-de-santo foi enfática: “deve haver, ué, não há outros garotos com o mesmo nome que o seu?”.

O ritual começou. A mãe de santo falou frases em idioma incompreensível, bateu com a mão na mesa algumas vezes e jogou as conchinhas que prendia à sua mão. “Tudo o que é dito na consulta é sigiloso”. Portanto, prefiro não arriscar. Depois de algumas revelações sobre minha pessoa, ela perguntou: “mais alguma pergunta?”. Eu disse: Sim, sobre você…

Esbocei pegar o gravador, mas logo fui interrompido. Não são permitidos objetos pessoais, muito menos eletrônicos, em cima de sua mesa. Recebi um papelzinho no qual pude fazer breves mas importantes anotações. Ela foi se tornando mais gentil e sorridente com o passar do tempo.

Foi por meio da dor que Mãe Valéria descobriu seu dom. Aos seis anos de idade, a menina esteve com uma grave doença, e por isso foi levada a uma mãe-de-santo vizinha à sua avó, no Bairro do Morumbi, em São Paulo. “Sou de família muito católica, minha avó era seguidora de Maria. O desespero que nos levou à busca por ajuda espiritual”, conta.

Para que fosse curada, foi necessário que raspasse santo, ou seja, raspou todos os pêlos do corpo. Desta forma, renasceu para iniciar a religião. Dentro do Candomblé, Valéria desenvolveu a espiritualidade e, há 32 anos, é mãe de santo.

Muitos de seus clientes são pessoas famosas e políticos influentes. Ao longo da vida, fez muitos amigos e já pôde ajudar em situações públicas. A procura para “amarrar” amor é grande. Sobre o prazo estipulado, Valéria explica. “Na maioria dos casos, isso chega a, no máximo, cinco dias. Se não acontecer o esperado, pode ser que haja um problema maior e kármico. Então é preciso parar e ver onde está a resposta.”

Mãe Valéria Nicolau (Oxóssi é seu santo, não seu sobrenome) tem quatro filhos, de 17, 14, 5 e 3 anos. Todos batizados no catolicismo. A filha mais velha, Catarina, é sensitiva, mas ainda não se dedicou por inteiro ao Candomblé. “Aqui em casa não imponho nada. Essa hierarquia de que avó, mãe e neta devem seguir pelo mesmo caminho não acontece. Deixo que eles resolvam por si só. É importante uma entrega total e, se não for por amor, será penoso”, ressalta.

De segunda à sábado, o dia-a-dia de Mãe Valéria segue em função das consultas e obrigações como mãe-de-santo. Aos domingos, se entrega a seu barracão, em Barra do Piraí. Com a ajuda financeira de clientes, mantém uma creche nos fundos, onde abriga 128 crianças (órfãos, em sua maioria). Elas recebem assistência escolar, orientação religiosa e kardecista. “Há pouco tempo um bebê de três anos foi adotado”, alegra-se Valéria.

A expressão “ tempo livre ” não é freqüente em seu vocabulário. A vida social se resume em casamentos e aniversários de entes queridos. Levar um filho ao colégio ou ir a um cinema é praticamente inviável. A ajudante Vanda, encarregada de organizar sua agenda lotada e cuidar das crianças, é o braço direito de Valéria. “Sei que abro mão de estar com a família, mas o meu maior prazer é servir à religião com amor”, afirma.

Em uma vida inteira lidando com problemas alheios e das mais variadas causas, Mãe Valéria relata um dos fatos mais inusitados que já vivera. Certo dia, um padre foi lhe pedir consulta. “Ele chegou e contou que queria resolver uma situação e, sem o menor problema, admitiu que era padre.”

Apaixonada e interessada por todas as religiões, Valéria tem muita fé, acredita que só o amor pode mudar o cenário da realidade mundial e afirma que todos os caminhos do bem levam a Deus. “Vivemos em um mundo onde nem cumprimentamos o nosso vizinho. A lei do retorno existe. Se plantarmos fiel, com certeza colheremos os frutos”, analisa. Voltando aos cartazes, colados em muros e postes, ela dá um palpite: “Por que não espalhar as palavras “amor” e “fé” pela cidade? Talvez assim as pessoas absorvam essa energia e passem a tratar o próximo como gostariam de ser tratadas”.

Por Pedro Farina


Responses

  1. Achei super interessante seu texto, pois sempre vejo esses anúncios pregados nos postes e cada vez penso uma coisa, tipo, que sujeirada na cidade, deve ser mais uma 171 por aí,ou até mesmo, será que ela é boa? Mas enfim,achei divertidíssimo me deparar com esse assunto de forma inesperada, pois estava navegando despretensiosamente e decidi escrever para você para dizer que valeu!Achei muito legal, você só não foi muito claro em relação a eficiência e preços cobrados., pois uma vez que o anúncio esteja espalhado por um dos bairros mais nobres da zona sul do Rio, imagina-se ser uma consulta caríssima , porém de total eficiência, ou não?

  2. Essas figuras são muito preciosas, pois nelas encarnam a tolerância perante todas as religiões, o que é importantíssimo hoje, tendo em vista o fênômeno da Nova Era e globalização religiosa.

  3. Excelente texto!
    Adorei o tom descontraído, a sua autoralidade…
    Muito humano tb. Parabéns!


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